TRANSPORTE PÚBLICO Certa vez dois amigos esperavam um ônibus na rua da Bahia. Era um daqueles pontos próximos da praça da liberdade, caso você se interesse. Podia ser qualquer outro ponto, mas era um desses. O homem A. esperava um ônibus enquanto o homem R. esperava por outro. Sem nada melhor para fazer A. indaga: _ Eu queria ser um príncipe Inglês que viveu sua vida em virtude e nobreza. Fez o que era melhor para a sociedade e si mesmo, em momento algum de sua vida teve grande revéz. Ou, quando o teve, foi breve e passageiro. Um príncipe que morreu com seus 37 anos -- ainda belo e amado -- após ver crescer até os 18 anos seus filhos, deixando na Terra uma bela e amada mulher. R.: Você queria morrer? A.: Não, gostaria de viver eternamente no último momento de vida desse príncipe. Quando ele sabia que a morte era inevitável e que todas suas conquistas em vida não seriam em vão devido a infortúnio qualquer. R.: É certo que chamariamos de feliz um homem que viveu bem toda sua vida e morreu antes que algum infortúnio o aleijasse. Você, entretanto, apega-se muito às definições e esquece quão monótona seria a eternidade que acaba de descrever. A.: Não é questão de definição. Eu só queria viver sempre com o máximo possível de prazer em minha mente. Com a certeza de que a minha vida foi plena e nada melhor poderia me acontecer. R.: Anseio nobre, mas a situação parece bastante infeliz. Não seria muito diferente de viver eternamente no momento em que um vicíado em cocaína usa sua droga. Se você se apega ao sucesso político -- e por isso escolheu o príncipe -- você poderia ser o governador do estado. Apesar que acho que o cargo público pouco importa nessa hora. A.: Talvez, mas qual o problema de desejar viver a vida toda com essa sensação de prazer? _ Putz, só tenho nota de R$50,00 -- disse R., ao trocador do ônibus, após ter se despedido de A. Trocador: Foi mal, mas não somos obrigados a dar troco pra 50. Você vai ter que sair no próximo ponto. R.: Por favor cara, deixa só dessa vez aí. Trocador: Nem rola. R.: Ok, beleza. R. desce no próximo ponto e disca para alguém em seu celular: _ Ei. Eu devo chegar aí um pouco atrasado. Então você pode tirar o assado do forno daqui uns 20 minutos. Ok? Quando eu chegar aí eu termino o resto do almoço. Fala pro pessoal esperar. R. continua subindo a rua da Bahia à procura de um taxi. Depois de três taxis cheios -- e 10 minutos -- passarem, ele consegue acenar e entrar num taxi. Ele dá boa tarde ao taxista e pede para ser levado até o destino.